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Associação Nacional de Grupos

de Apoio à Adoção

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Apoio:

Nossos filhos, nossas escolhas

Leandro e eu escolhemos ter três filhos. Cada um veio em um tempo, de uma forma, com uma idade, com uma história diferente e uma carinha linda que se entregava ao cruzar o nosso olhar pela primeira vez.

 

Valentina chegou bebê, durante o verão de 2006, diretamente das entranhas, nasceu forte e recebeu um nome valente porque era predestinada a ensinar seu pai e sua mãe sobre as aventuras do cuidado incondicional, do medo e das lutas de cada dia, uma por vez. Paulinho nos conheceu no outono de 2007, aos 3 anos, precisando de uma família para niná-lo e cuidar de sua saúde. Ele estava sozinho, tinha leucemia, precisava de cuidados especiais e nós decidimos que poderia ser o nosso segundo filho. Habilitamos nossa pretensão perante à justiça. Foram meses de intensas descobertas, entre cuidar da Valentina e do Paulinho,

lutando por sua vida e recebendo o apoio das pessoas queridas da organização Abrace, em Brasília. Apesar do melhor tratamento, da nossa dedicação e do nosso amor, Paulinho se foi, como um anjo. Nosso filhotinho baiano nos ensinou que era possível amar alguém que não saiu da gente, que sua vida poderia mudar de uma hora para outra, mas o amor permaneceria ali, cristalizado na alma.

 

Vivemos o luto juntos e decidimos seguir com o processo de adoção de outras figurinhas.

 

Daí, partimos em direção ao balcão da vara da infância, deparei-me com um folder do grupo de apoio à adoção Aconchego. Precisávamos nos aconchegar e conhecemos um mundo de gente que vive para formar famílias. A gestação da adoção dura um tempo indefinido, pode ser meses, anos, e trabalhar a espera é o pré-natal ideal. Nas conversas em roda, aprendemos que os filhos não saem da gente, mas entram um pouquinho a cada dia. Aguardamos por dois anos, até que um dia, durante a primavera de 2009, atrás de uma mensagem virtual, fomos convidados a conhecer o Miguel, de 9 meses.

 

Cruzamos três estados em uma aventura de carro para encontrá-lo. Sob a proteção de São Miguel Arcanjo, ele foi batizado. Seu sorriso banguelo, os olhinhos puxados e o cheirinho gostoso que saía de seu corpinho fez nascer o amor à primeira vista. Um amor terno, farto, cheio de medo, insegurança, sobre o que viria pela frente, mas repleto de esperança de que conseguiríamos cuidar e proporcionar tudo que ele precisava.

 

Miguel demandava cuidados próprios, curiosidade e perseverança face às características da síndrome de Down. Mas, isso era só um detalhe de sua individualidade. Era como se ele sempre estivesse entre nós.

 

A família, que estava receosa com sua chegada, acolheu aquele bebê fofo imediatamente. Cada um participa do cuidado da forma que pode, com simplicidade, carinho e paciência. O amor entrou com sofreguidão, de uma vez, como uma inundação. Era e é impossível resistir ao seu olhar maroto, sua gargalhada e suas travessuras.

 

Junto com a trissomia do cromossomo 21, conhecemos um mundo de gente que trabalha, luta e briga para que seus filhos tenham os mesmos direitos de qualquer pessoa: viver em família, com saúde e educação, amar, estudar, brincar, trabalhar, contratar e ser contratado, casar, viajar, aposentar-se e ser respeitado em suas diferenças como ser humano.

 

Miguel nos ensinou que o seu primeiro direito é o seu tempo de aprender, ele não é obrigado a atender às expectativas alheias, é livre, inteligente, teimoso e resiliente.

 

Sentíamos que nossa família não estava completa, faltava mais um. Valentina e Miguel estavam preparados para adotar mais um irmão ou irmã.

 

Eis que Arthur, nosso caçula, chegou com um ano e comendo maçã, durante o inverno de 2011. Arthur já estava predestinado a ser nosso filho, pois desde a adolescência minha mãe profetizava: “Você ainda terá um Artur”, fazendo alusão ao meu irmão encrenqueiro.

 

O nosso Arthur, com TH no nome, era menino forte, cheio de vida, do sorriso mais radiante que eu já vi, dono dos olhos vivos e curiosos, todo faceiro em conhecer aquela gente barulhenta e agitada. Valentina e Miguel vibraram para apertar, cheirar e traquinar com o novo parceiro.

 

Em casa, ele já engatinhava, comia sozinho e apoiou Miguel a andar e ter mais autonomia. Mostrou à irmã Valentina que o amor dos pais dava conta dos três filhos. Ele nos mostrou a perversidade do preconceito racial e como é cruel ser discriminado em razão de sua cor, ainda na infância.

 

Enfrentar o preconceito é uma tarefa constante para garantir os direitos dos nossos filhos.

 

Trabalhamos em família a postura mediadora entre enfrentar o racismo como crime e educar o racista, entre confrontar qualquer forma de exclusão e esclarecer a sociedade das potencialidades da pessoa com síndrome de Down. É exaustivo e necessário, um

limite delicado a vencer, que se mistura a milhões de sentimentos, como indignação, raiva, vergonha e esperança. Sentimos a dor dos nossos filhos na carne.

 

Arthur e Valentina seguem aprendendo, juntos e naturalmente, Miguel tem o próprio ritmo de assimilar as coisas. Ambos apoiam o mano nas atividades diárias, elogiando ou corrigindo, cobrando os mesmos direitos, dividindo as brincadeiras, as broncas, os

abraços e os brinquedos. É incrível a simbiose dos três e trabalhamos para que cresçam unidos e amigos.

 

Hoje eles formam uma trupe ainda mais barulhenta, que estuda na mesma escola, enchendo o mundo de alegria, risos e travessuras.

 

Refletindo sobre a diversidade da nossa família, Valentina pôs seu sentimento e expectativas no papel, publicando em 2016, o livro infantil “Meus irmãos chegaram”. Esse texto singelo e muito colorido escancarou uma perspectiva da adoção que não tínhamos ainda observado: a contraposição entre o irmão idealizado e o real, do ponto de vista da irmã que também adota.

 

A certeza que temos é que os três foram muito desejados, muito esperados, não importando a origem, mas a escolha de nós, pais, em transformá-los em filhos e filha.

 

De uma vez só, são três abraços, três beijos, três banhos, três papás, três histórias, três perfumes, três cafunés, sessenta unhas, risadas e choros, cachorros, gatos, passarinhos, tudo junto e misturado, todos os dias de nossas vidas, para sempre.

 

Brasília, outono de 2018.

Fabiana, Leandro, Valentina, Miguel e Arthur